Tiraste-o de mim

Tiraste-o de mim sem me questionar
Não te daria autorização, bem o sabíeis.
Mas não foste justo
Não foste sensato 
Criaste seres perdidos 
E não estamos todos? 
Uns mais do que os outros, bem sei. 
Mas foi-me retirada a oportunidade (ou o privilégio?) de o conhecer antes de ti.
Não tardaste em chegar! 
E trouxeste a dor, a desgraça e a miséria contigo. 
E agora eu fico assim. Sem saber. 
Quem foi ele? 
Porque quis deixar de ser quem era? 
Porque quis deixar de ser? 
E porque não voltou a ser depois de mim? 
Não lhe fui suficiente?
Não lhe dei o amor necessário? 
Daqueles que ligam os pais aos filhos.
Mas, pelos vistos, não fui.  
E eu que tanto me esforcei em sê-lo.

Desfez-se a emoção. E agora não o consigo fitar, tocar ou abraçar. 
Não quero. Não há sentimento, não há conversa, não há momento.
Existimos, apenas. Dois estranhos que coabitam quando tem de ser. 
Que às vezes lançam o olhar um sobre o outro, mas que nunca se olham. 
Porque sabem que o olhar traz a memória e a memória traz a dor. 
Trágicas memórias.
Não nos olhemos então. 
Ele que fique aí que eu aqui fico. 
Que não se aproxime? Melhor assim.
Não quero observá-lo. 
E vislumbrar-me no seu olhar vazio? 
No fantasma que habita aquele corpo moribundo? 
Ver a desgraça e a dor que carrega? 
Este ser frágil, inocente, perdido, com feitio de cão enraivecido? 
Tem amargura e ódio dentro dele. Está sempre maldisposto.
Pudera! Só tem um amigo. 
E eu só o conheço assim. 
Há mais? Nunca saberei.
Pobre coitado. 
Tal é um, tal é o outro, já dizia o ditado.
Mas não somos
Por diferentes razões.
Não somos nem nunca seremos.
Porque eu quis mais, apesar de nunca nada me ser suficiente por não o ter em mim. 
E ele padeceu do mesmo pecado.
Quem tudo quer tudo perde, não é verdade? 
Mas eu não sei o que ele queria. 
Só sei que lhe podia dar o amor de uma filha. 

Queria poder dar-lhe um pouco de mim. 
E dizer-lhe que estou aqui. 
Mas precisava daquele ser que não conheci. 
Um momento ou uma memória. 
Um acesso, por mais ínfimo que seja 
Do passado que perdi
E do amor que nunca senti
E que jamais poderei sentir.

Mas eu perdoo-o.

A ti não, que só trazes destruição. 
Que fazes ainda aqui? 
Mas quem te chamou? 
Oh, foi ele outra vez, não foi? 

Mas que não se lamente aquilo que não se viveu 
Pois que o futuro é para a frente 
Sem ti
Que já me tentaste tentar várias vezes. 
Não fazes parte dele
Não sucumbo aos desígnios do diabo
Porque não sou débil 
Como ele foi. 
Afinal, nem sempre quem sai aos seus é de Genebra.

Filipa Fidalgo, 08 de agosto de 2023

A saudade é, para mim, um sentimento estranho. Sempre ouvir dizer que diminui com o tempo, que nos vamos habituando, que nos vamos esquecendo, mas, no meu caso, aumenta, surge quando menos espero, instala-se ao meu lado, dói. É estranha a dor da saudade porque, para mim, é física.

António Lobo Antunes